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A minha primeira vez a ver flamenco: o que não esperava

A minha primeira vez a ver flamenco: o que não esperava

Quase não fui

Sejamos honestos: cheguei a Sevilha convicto de que os espetáculos de flamenco eram uma armadilha turística. Tinha feito investigação suficiente para saber que alguns dos maiores tablaos — os locais de espetáculo de flamenco dedicados — têm vários espetáculos por noite, sentam duzentas pessoas e emparelham as suas atuações com sangria com preço exorbitante. Tinha lido as queixas no TripAdvisor: rígido, mecânico, atuado para câmeras.

Portanto nos primeiros dois dias da minha viagem evitei deliberadamente reservar qualquer coisa. Caminhei pelo Barrio de Santa Cruz e passei pelos locais bem iluminados na Calle Agua. Mantive a cabeça baixa.

No terceiro dia, uma mulher a gerir uma banca de cerâmica em Triana disse-me para ir à Casa de la Memoria.

“Não é a mesma coisa,” disse ela. “Muito mais pequeno. Eles realmente conhecem o flamenco lá.”

A Casa de la Memoria não era o que esperava

A Casa de la Memoria fica na Calle Cuna no Centro Histórico, um espaço estreito caiado de branco com capacidade máxima para cerca de 100 pessoas. Não há serviço de jantar, não há menu de sangria, não há apresentador em inglês a explicar a história do flamenco em pontos de quatro partes. Chegam, sentam-se em cadeiras de madeira dispostas numa ferradura aproximada, e os artistas entram sem cerimónia.

O espetáculo a que assisti durou cerca de 75 minutos. Dois dançarinos (uma mulher e um homem), um cantor (um cantaor), um guitarrista e um percussionista. O cantaor atuou o primeiro número de pé, olhos fechados, num silêncio completo que nunca tinha experimentado num espaço de espetáculo daquele tamanho. O estilo era siguiriyas — uma das formas de flamenco técnica e emocionalmente mais exigentes, tradicionalmente cantada em momentos de luto. Não percebi uma única palavra. Não importou.

Reserve bilhetes para o flamenco da Casa de la Memoria com antecedência

O que ninguém vos diz sobre ver flamenco

A fisicalidade é a coisa. Tinha visto clipes online; o vídeo online não vos prepara para o som do zapateado (trabalho de pés) numa sala pequena com chão de pedra, ou para o estalo repentino das palmas (palmas das mãos) dos próprios artistas quando o ritmo atinge o pico.

No flamenco, os artistas respondem uns aos outros e ao público em tempo real. Há uma qualidade improvisada mesmo no material preparado — o guitarrista estende uma passagem porque o dançarino está no meio de algo extraordinário, o cantor responde à expressão do dançarino com uma frase que não estava na versão de ensaio (se houve uma versão de ensaio). Quando li mais tarde sobre isto — o conceito do duende, o estado de intensidade criativa elevada que o flamenco aspira a alcançar — reconheci exatamente o que tinha visto acontecer duas vezes naqueles 75 minutos.

A primeira vez: uma sequência de trabalho de pés que começou lenta e cresceu ao longo de um crescendo de três minutos até que tanto o dançarino quanto o guitarrista estavam a fazer algo que parecia tecnicamente impossível e o cantaor estava a meio gritar encorajamento do lado do palco. A segunda: o final do espetáculo, em que a dançarina feminina executou um solo que parecia durar o dobro do tempo previsto, ninguém a parou, e a sala irrompeu num tipo de aplauso em que as pessoas fazem sons involuntários.

A diferença prática entre espetáculos

Desde então falei com pessoas que foram aos locais maiores — Tablao Los Gallos perto do Alcázar, Tablao El Arenal, outros. Algumas tiveram experiências genuinamente boas. Um casal que conheci descreveu um espetáculo do Arenal como “tecnicamente impressionante, como ver atletas.” Outro par no mesmo espetáculo ficou indiferente: “Parecia que estavam a seguir um guião.”

A diferença, pelo que consigo perceber, é os assentos. Nos locais maiores, quanto mais longe do palco estiverem, mais parece estar a ver um espetáculo em vez de estar dentro de um. Um local com 40 lugares não tem lugares maus. Um local com 200 tem.

A minha taxonomia aproximada:

Locais íntimos (menos de 80 pessoas): Casa de la Memoria, Flamenco Triana (Calle Pureza). É onde vão se querem sair transformados por algo.

Tablaos de tamanho médio (80–150 pessoas): Tablao Los Gallos. Alta qualidade técnica, alguma infraestrutura turística (bebidas disponíveis), ainda capaz de momentos genuínos. A reputação é sólida.

Grandes tablaos com jantar (150+ pessoas): Bons para grupos, bons valores de produção, menos fiáveis pela qualidade do espetáculo específico que calha ver.

O que reservar e quando

A Casa de la Memoria esgota. Não consigo sublinhar isso suficientemente. Comprei o bilhete três dias antes para um espetáculo de quinta-feira em outubro e fiquei com o último lugar disponível. Nos meses de verão (junho–agosto) e durante a Semana Santa ou a Feria de Abril, reservar com uma semana de antecedência é o mínimo. Duas semanas é mais seguro.

Os bilhetes na Casa de la Memoria custam €22–28 dependendo do espetáculo. Não está incluída bebida; vendem vinho e água no bar antes do espetáculo. Comprem um copo antes de entrar e mantenham-no, porque assim que as luzes se apagam o bar fecha e já não se está a prestar atenção de qualquer forma.

Consultem o nosso guia completo dos melhores espetáculos de flamenco em Sevilha para uma comparação mais alargada de locais. E se são novos no flamenco, o guia de flamenco para principiantes dá-vos contexto suficiente para entenderem o que estão a ver — os palos (estilos), a estrutura, o vocabulário que os artistas usam entre si.

O que mudou

Voei de regresso a casa e passei uma viagem de comboio vergonhosamente longa a ver clipes de YouTube de espetáculos de flamenco dos anos 1970. Ainda estou na fase em que aprendo a ouvir o que os artistas estão a fazer. Mas entrei cético e saí outra coisa.

A vendedora de cerâmica em Triana tinha razão.